sexta-feira, 23 de setembro de 2016

à deriva

Você acorda com uma dor no peito que não sabe se é real ou imaginada e fica deitada olhando pro teto, esperando passar. Enquanto espera, sente os ponteiros do relógio se arrastando lenta e pesadamente, e pensa com culpa no tempo que está perdendo ali – e ri de si mesma porque você sequer tem um relógio de ponteiros.

A cama não parece mais segura do que a ideia de levantar e seguir em frente, mas a cama tem a força gravitacional de Júpiter, e você é só mais uma lua no universo.

A dor no peito não passa, e os dedos começam a ficar inquietos, tamborilando o colchão, e as unhas vão arranhando os braços e os pulsos quando as mãos não estão ocupadas abrindo e fechando sem parar. A dor no peito não passa e ela sobe até a garganta, e você sente como se tivessem colocado uma corda no seu pescoço sem você perceber.

De repente seu rosto inteiro dói e você não consegue respirar – você não sabe se está respirando demais, ou se está respirando de menos. Você busca o próprio pescoço tentando se desfazer da corda que o está apertando, mas não tem nada ali te apertando a não ser você mesma, e quando você menos espera você chora sem nem saber o porquê.

A dor que começou no peito finalmente chega à cabeça e você sente suas têmporas latejarem, você sente uma pontada atrás da outra atrás dos seus globos oculares, são agulhas invisíveis perfurando suas terminações nervosas e você só quer que isso acabe: a dor na cabeça, a dor no pescoço, a dor no peito.

O quarto parece um pouco mais escuro quando você olha em volta, e você percebe que não sabe se é mesmo de manhã e você tem que levantar, ou se é de noite e você tem que dormir – porque não importa o que você tenha que fazer, o que você precisa fazer, você apenas não consegue.

Você fecha os olhos com força, e você também não consegue mais respirar – porque tudo em você ficou congestionado pelo choro e pela ansiedade -, e você murmura baixinho um pedido pra que isso acabe logo, pra quem quer que esteja te ouvindo naquele momento - mas não tem ninguém ali.

Os seus soluços são os únicos sons que você ouve de volta, e é nessa hora que você não sabe mais o que fazer.

Você tem essa lista enorme de coisas que você não consegue – respirar, levantar, dormir, pedir ajuda, continuar -, e, enquanto a gravidade que é essa tristeza te esmaga contra si mesma, você chega à conclusão de que o que você não consegue mesmo é viver.

Você é só um corpo estranho perdido no espaço.

(e talvez esse seja seu último pensamento antes da sua respiração voltar ao normal).

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