"Parece que foi ontem que a gente se conheceu. Você tava sentada do outro lado da sala, eu me aproximei e te pedi um cigarro, e você com o maior tom de indignação do mundo perguntou se tinha cara de quem fumava, por acaso".
"E você com a maior cara-de-pau do mundo respondeu que não, que você também não fumava, mas que precisava de um pretexto pra vir falar comigo".
"Você precisa admitir que foi genial"
"Eu admito que você foi um idiota", sorriu.
"Com quem você continua falando até hoje".
"E eu nem mesmo sei por que".
"Porque você sabe que precisa de mais pessoas que te façam rir de verdade".
"Eu acho que rio o suficiente".
"Não de verdade".
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"Por que você tava lembrando de quando a gente se conheceu?"
"Porque às vezes eu olho pra você, como agora, e parece que o que quer que tenha te deixado mal naquela noite não foi tão grande ou tão ruim quanto aquilo que te deixa mal agora. E eu honestamente não sei mais o que eu posso fazer pra que isso pare de crescer e te levar embora".
"Duas coisas: você não tem que fazer nada, e eu não estou indo pra lugar nenhum".
"Eu tenho síndrome de herói, já esqueceu?".
"Não. Mas não tem absolutamente nada que você possa fazer por mim".
"Você não precisa passar por isso sozinha".
"Meu bem, todo mundo vai embora. Ninguém consegue ficar do lado de quem olha pras coisas e não sente nada, e fica apático, e pra quem tudo é triste e sem esperança. Não tem amor que dure, não tem amor que cure, não tem amor que te faça ficar ali, todos os dias, crise após crise, dormindo do lado de um vazio, cumprimento um vazio, abraçando um vazio. Porque uma hora o vazio começa a tomar conta de você também, e aí como vai ser? Eu acreditava que não precisava passar por isso sozinha, que eu teria amigos, que eu teria amor, que eu teria gente do meu lado. Mas sempre tem os dias nos quais você não quer mais existir, e todo mundo vai dizer as coisas que você já sabe de cór - não porque elas disseram isso mil vezes, mas porque você disse isso mil vezes pra si mesmo antes de chegar onde você está. E ninguém vai entender que você está cansado desses discursos porque você já os fez milhares de vezes na sua cabeça, você já os ouviu o suficiente, você já repetiu tanto isso pra si mesmo que a coisa toda perdeu o sentido, que nem acontece quando a gente repete muitas vezes seguidas a mesma palavra. Então sim, eu preciso passar por isso sozinha. Porque todo mundo vai embora, e todo mundo tem uma vida que não gira em torno do meu umbigo. E se eu não souber passar por isso sozinha quando todo mundo tiver o que fazer, como é que vai ser? Como é que eu vou ficar? Viver é sozinho, e não tem síndrome de herói nenhuma que mude isso".