terça-feira, 15 de novembro de 2016

if I could start again a million miles away

"Então, o que estamos fazendo aqui hoje?"

"Tentando transformar essa bagunça deprimente que tá aqui em arte, e quem sabe assim essa merda não fica mais tolerável ao olhar das pessoas?".

"Por que você é assim, cara?"

"Assim como?"

"Assim, meu! Sabe, as paredes das quais você tanto fala... Você vive construindo paredes. Várias delas. Uma seguida da outra, e de repente você percebe que não são mais as paredes de um quarto, mas sim as paredes de uma caixa-forte que ninguém mais consegue ter acesso. Não dá pra bater três vezes nessa porta, pedir licença e entrar. A gente tem que passar por toda a burocracia do mundo pra chegar perto da única pessoa que tem a chave, e sabe, isso é ridículo. Eu SEI que o conteúdo dessa caixa-forte é precioso, mas pensa, se a gente estivesse falando da última espécie de uma planta muito rara e benéfica pra humanidade, ela não poderia ficar trancada numa caixa-forte. E nem vem me dizer que talvez desse mapeá-la geneticamente e reproduzir em laboratório. FODA-SE o laboratório. Faz que nem você faz com a física e desconsidera a gravidade, ignora os obstáculos óbvios e acredita que essa planta precisa ficar viva. VIVA. VI-VA. Num ambiente de verdade, não num ambiente controlado. Ela talvez seja a última coisa boa da humanidade, mas ela não vai sobreviver às paredes dessa caixa-forte. Então, sério, por que você constrói e aceita essas paredes como se elas fossem as únicas coisas que te restassem?".

"Eu... não sei. Às vezes eu me sinto como minha mãe, querendo arrumar tudo pras visitas, meio que reproduzindo aquele discurso que eu sempre odiei na adolescência e que nunca fez sentido. Quer dizer, por que eu deveria me preocupar com as visitas se sou eu quem moro aqui, entende? Por que eu estou me preocupando em tirar a louça bonita pra uma pessoa que vem me ver uma vez por mês? Por que eu não posso usar a louça bonita todos os dias da minha vida? Mas aí o tempo passa, e não sei, a vida vai acontecendo sem você prestar muita atenção e de repente você é a sua mãe. Se preocupando com as visitas. Mas eu tô tão cansada de me preocupar com as visitas... Eu acho que passei a ter medo delas em algum momento. Vai que elas roubam alguma coisa de mim? Vai que elas me tiram o que eu tenho de melhor? Vai que elas olham pra isso tudo e riem de mim? E usam isso contra mim? E de repente talvez eu não quisesse mais visitas. Eu não sei se eu quero mais visitas. Eu realmente não sei".

"E você não precisa necessariamente receber visitas numa caixa-forte..."

"Exato".

"Ela só vai entrar se você confiar muito..."

"Sim, exatamente isso!"

"Mas meu amor... O que acontece se justamente essa pessoa levar tudo?"

A risada nervosa antecede a crise de choro.

"Eu venho aqui e tento fazer alguma coisa bonita com isso tudo. Algo que os outros gostem de olhar".

(Mas principalmente eu. Principalmente eu).