É mais um encontro de quinta-feira no nosso restaurante preferido. Você chega atrasada, como manda toda boa tradição, e sua bebida já está à espera, porque eu tomei a liberdade de pedir por você na sua ausência. Você sorri e me agradece, faz uma piada sobre a gente se conhecer tão bem, toma um longo gole e se recosta na cadeira perguntando “E aí, tudo bom?”.
É uma pergunta simples, mas todas as respostas nas quais eu consigo pensar são difíceis, porque eu não sei explicar esse sentimento de vazio que tem consumido o meu peito. Eu não sei explicar as três crises de choro que tive hoje mais cedo, nem explicar por quê elas pararam – talvez porque a natureza faça tudo parar, em algum momento? Não sei explicar essa música que não sai da minha cabeça, e essas lembranças que não saem da minha pele.
Então respondo com um “Não, não exatamente”.
Você suspira. Você me olha com seus enormes olhos castanhos, e o que eu leio neles é um misto de condescendência e exasperação. Porque são anos lidando com meu laconismo crônico a respeito desse vazio recorrente. Você espera mais alguns segundos por um complemento que ambas sabemos que não vai vir, e enquanto começo a brincar com o canudo do meu copo, você começa a contar sobre seu dia.
Durante as três horas seguintes você consegue tirar de mim longos discursos sobre a sua vida, sobre os seus problemas, sobre o que deve ser feito ou que deve deixar de ser feito, enquanto você abre seu coração com uma desenvoltura que eu só tenho quando estou falando dos outros – como agora, nesse momento. E se eu noto minha desenvoltura em falar, você também nota. Eu pareço dona de mim mesma, como eu sempre fui, e talvez isso signifique que está tudo bem agora.
Mas não está tudo bem agora, porque na verdade eu sinto minha voz embargar enquanto falo, e meus olhos lacrimejarem de tempos em tempos. E eu não sei se você percebe isso. Eu não sei se isso te faz sentir impotente e por isso você prefere ignorar que está acontecendo, ou se você só está tentando me dar espaço pra eu me abrir quando estiver pronta de verdade. No fim das contas talvez seja um pouco de tudo isso, ou talvez você não esteja percebendo nada, então eu pigarreio, me ajeito na cadeira e peço à moça que está nos atendendo um novo refil de bebida.
Quatro horas depois desde que você chegou aqui – pronta pra me ouvir porque eu precisava conversar -, você se levanta mais leve pra pagar a conta, enquanto eu sinto meus ombros pesarem e o meu peito prestes a explodir. A iminência do fim do encontro e da minha chance de dizer como eu me sinto me faz desabar de uma vez.
Você volta pra mesa, os olhos arregalados, a preocupação com perder o último metrô e comigo ficando sozinha dali em diante. E são anos lidando com esse mesmo padrão, e você provavelmente pensa que não é justo, e qualquer um provavelmente pensaria ser chantagem emocional ou algum tipo de manipulação, e você dedicou quatro horas do seu dia pra me ouvir, e eu não quis, eu não tive coragem, eu não consegui fazer durante essas quatro horas o que eu estou fazendo nesses últimos cinco minutos.
Mas você realmente precisa ir embora, então você tenta pelo menos se certificar de que eu voltei a respirar direito antes de me lembrar da hora. Sua testa está franzida de preocupação, você pede desculpas, e nos seus olhos eu leio o cansaço por mais uma vez ser assim. Eu tento dizer que não, não é sua culpa, e você me diz “É, eu sei. Só tenta ficar bem, ok?”, até que você vai.
São anos lidando com meu laconismo crônico sobre esse vazio recorrente, o suficiente pra saber que eu não vou chegar a lugar algum - e eu realmente não chego a lugar algum.
E a culpa é minha.