quarta-feira, 6 de julho de 2016

(o subtítulo)

Eu tento colocar as palavras no papel, mas é como se nenhuma das vozes que saem da minha cabeça fossem minhas. De repente é como se a fala embaralhasse os dedos e tudo não passasse de balbuciações de uma criança que ainda está aprendendo a falar.
Eu me pergunto se isso ainda sou eu reaprendendo o mundo ao meu redor, reaprendendo a maneira de olhar, de sentir o universo na ponta dos meus dedos.
Antes, numa outra vida, havia tanta cor à minha volta que eu sentia como se meus olhos fossem de caleidoscópio. Tudo era eletrizante e vibrante, intenso e arrebatador: um dia de chuva especialmente cinzento ganhava contornos poéticos e apaixonados; uma viagem de ônibus era contada com leveza de um beija-flor se sustentando no ar; e a dor... a dor era mitigada em versos, em personagens que poderiam ser qualquer pessoa e ao mesmo tempo ninguém, em contos que tinham como único objetivo fracionar a angústia e o desespero que eu levava comigo.
Naquela época, até a solidão era dobrada pelos meus amigos imaginários – Gueto, Caeris, Marina, a menininha de Exupery, Caio, e tantos outros -, mas agora a solidão é outra, e os amigos imaginários parecem ter ido pra sempre, como se o maior resquício de sua existência fossem as cinzas, espalhadas pelo caminho, daqueles sentimentos que queimaram até o último sopro de vida que consegui lhes dar.
Eu sinto falta deles, e sentir falta deles é o mesmo que sentir falta de mim. Eu quero entrar em contato com eles de novo e querer isso é querer entrar em contato comigo mesma. É querer retomar aquela parte da minha vida onde eu não tinha medo do diálogo, nem de me expor - é querer aquela coragem latente de volta, que explodia em palavras de raiva e ressentimento, amor e paixão, esperança e felicidade.
Eu quero conseguir colocar tudo pra fora, de novo. Dar vida à vida que eu tenho dentro de mim. Moldar meus  bonecos de barro e neles soprar as vozes inquietas que não me deixam dormir. Eu quero me reconquistar, me recriar, me renovar.
Não é sobre voltar a ser quem eu era. É sobre ser uma versão melhor daquilo que eu gostava e do que eu me orgulhava. Uma versão melhor de mim.

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