segunda-feira, 8 de agosto de 2016

tato

Ela não gostava de aparecer em fotografias, então eu procurava outras formas de recordá-la para quando estivesse longe.

Comecei pelo desenho, mas logo descobri que havia mais vontade do que talento. Decidi escrever, mas o texto parecia sempre desencontrado de si mesmo - as palavras vinham em conta-gotas enquanto o sentimento vinha em corredeiras. Por fim, tentei me aventurar pela música, pelas notas murmuradas como cantigas de ninar, e mesmo na música parecia faltar a parte dela que me deixava sem ar.

Depois de tudo, me rendi à maneira mais primitiva de lembrar, e talvez a que tenha se mostrado mais eficiente. Com as pontas dos dedos, como quem desvenda o braile, percorri seus traços e seu corpo. Fiz, aos poucos e sem pressa, cada centímetro da minha pele reconhecer o toque da sua pele - e suas imperfeições, e suas marcas, e suas cicatrizes. E na extensão dela memorizei toda uma história contada pelo tempo.

(No fim, não precisei desenhá-la com luz e contraste - meu corpo lembra).

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